A morte da arte.

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Todos os dias antes de ir para o trabalho, eu passava numa cafeteria quase do outro lado da cidade, perto de um parque. Eu não ia pelo bom café, eu não ia porque a rosquinha era mais doce, também não ia porque era caminho da empresa, e muito menos porque marcava com algum amigo. Eu ia para contemplar uma coisa rara, uma linda jovem que desenhava sua alma em todos os copos de café.

Sinceramente, ela não era a mais linda da cidade, ela não tinha olhos azuis, ou fartos peitos. Não era pela sua beleza que eu ia, mas sim pela pureza e paz que ela me passava, sem nem precisar falar uma palavra. Ela era gentil, sorria para todos, mesmo trabalhando às 6:30 da manhã de segunda-feira, e tinha uma concepção de arte que mudava o dia de todos, ou pelo menos, o meu.

Uma vez ela desenhou formigas com celulares por todo o copo, e isso realmente me fez parar e pensar o dia todo. No dia seguinte, perguntei a ela o que queria dizer, e Estella (também soube no mesmo dia seu nome), disse: “Formigas trabalham diariamente no automático, elas se esbarram, viram, e continuam seu caminho. É assim que vejo todas as pessoas. Ninguém para mais e pergunta como está o dia, todos perdem grandes amizades e possíveis amores a cada segundo.”

Enfim, cheguei no estabelecimento, e entrei na pequena fila que tinha. Tentei enxergar Estella, com umas cincos pessoas na minha frente bloqueando a visão, mas quando a vi, ela não estava tão sorridente. Na verdade, ela sorria, e dizia “Tenha um bom dia”, porém, não estava como sempre, estava tudo tão sem alma. Esperei minha vez.

– Bom dia, Estella! – sorri o máximo que pude.

– Olá, bom dia – ela deu o mesmo sorriso falso que tinha dado para os outros clientes. – Café expresso, certo? – perguntou sem muito interesse, sem tirar os olhos da máquina registradora.

– Ahn… Isso. – entregou-me o copo. O copo branco com apenas a logo da cafeteria. Sem arte. Sem nada para mudar o meu dia. Nada para alimentar minha alma. Só o café.

Ela percebeu minha confusão, eu podia notar isso em seu olhar para o copo, e em seguida para meu rosto. Sem expressão, foi assim que olhou-me. Mantive-me calada, saí do local, e subi na minha moto, em direção ao meu destino. Passou-se o dia, e eu ainda não tinha me conformado com a morte da alma de Estella. A jovem que tinha me encantado com tão pouco, estava perdida, como as formigas de uma de suas artes. Olhei para a estante, onde guardo os copos de suas artes, e lamentei mentalmente sobre o fim.

Finalmente tinha acabado o meu expediente, despedi-me de alguns colegas de trabalho, e peguei a chave da minha moto. Quando saí do prédio, deparei-me com uma imagem que nunca julguei por possível: Estella sentada na calçada e desenhava algo num papel. Parecia distraída, seus olhos continuavam sem vida como mais cedo, ela mordia levemente os lábios, até que notou minha presença.

– Olá – disse um pouco tímida.

– O que faz aqui? – perguntei com certa curiosidade.

– Percebi sua insatisfação hoje cedo, como foi uma das poucas pessoas que notou a diferença no dia, queria esclarecer sua cara de confusão. Mas antes, quero saber seu nome.

– Vitória. Eu realmente notei a diferença, dá pra notar seus olhos de luto.

– A morte da minha alma? – concordei com a cabeça, e sentei-me ao seu lado.

– Na verdade, você é a única pessoa que conheço que eu senti vontade de conversar. Você faz com que o último milímetro da minha alma queira estar vivo. A arte morreu.

– A arte não morreu, todos os dias em que você desenhava nos copos de café, eu os guardava e repensava toda a minha vida durante o dia. A arte ainda tem poder na sociedade, seja por grandes quadros, pequenos poemas, ou até em simples desenhos em copos de papel.

– Você foi a única. – ela me olhou, o olhar tão perdido. Eu comecei a levemente rir, e a abracei. Ela saiu do abraço, e me olhou completamente confusa.

– Meu Deus! Você é oficialmente uma artista! Até mesmo os dramas clichês você está tendo. Todo artista passa pelo momento de achar que sua arte não é relevante para o mundo, e você precisa entender que sem isso, o mundo vai perder seu lado estético crítico. Vai perder a inocência da arte. Você realmente precisa me prometer que não vai proibir sua criatividade de aflorar a vida alheia! – quando a olhei nos olhos, eles estavam brilhando, escorreu uma lágrima, e eu sabia que era a lágrima mais carregada de esperança que o mundo já havia presenciado.

Ela abriu sua mochila, ficou procurando por alguns segundos, e tirou um copo de café de dentro. Ela estava encarando-o, tinha algo desenhado, eu não conseguia ver, então, ela me entregou. Era eu. Definitivamente, era eu. Meu coque bagunçado de qualquer dia de manhã, minhas unhas pintadas, a pequena tatuagem que tenho no dedo, era um desenho lindo, mais lindo ainda quando virei o copo, e tinha outro desenho. Novamente eu. Eu beijando Estella. Em algum momento artístico, ela se preocupou em nos desenhar, mesmo que nunca tivessemos passado horas conversando.

– Você foi o melhor acaso que o destino me deu. – disse Estella quando se aproximou de mim.

-G.F

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