Colecionadora de Histórias

Eu ando muito sozinha, sempre estou pegando ônibus sozinha, indo pra faculdade, indo ao shopping, esperando, fazendo alguma coisa, enfim, eu passo muitas horas do dia na rua sozinha. Faço isso há alguns anos, e com o tempo adquiri uma mania, que eu acho sensacional. Porém, essa semana ela foi interceptada.

Sempre que estou nos lugares sozinha, eu analiso as pessoas que estão próximas de mim, e simplesmente invento toda uma história para elas. Se já foi casada, se faz faculdade de medicina, se já foi traída, se assistiu o penúltimo episódio de Game Of Thrones, para aonde estão indo, se gostam de ir à praia quando está nublado. Imagino tudo, isso foi um modo de passar o tempo, e passei a adorar isso. Acho isso fantástico, pensar que cada pessoa que passa por você durante o dia tem uma história única, eu gosto de tentar adivinhar um pouco.

Então, eu tinha acabado de sair de uma prova da faculdade, estava bem frio, e escolhi sentar do lado que tinha sol no ônibus. Entrou um garoto, e eu, instantaneamente, comecei a imaginar todo um passado para ele: não tinha tido muitas oportunidades na vida, não era popular na escola, provavelmente, sentava no canto direito na sala de aula, um local para não ser muito visto. Passava despercebido por todos.

Seu pai tinha morrido, quando ele tinha apenas 6 anos, foi criado pela mãe e a avó, tem uma irmã e dois irmãos mais novos. Escutava Projota e Emicida, foi apaixonado pela melhor amiga, até teve sua chance, mas não foi do jeito que imaginava. Ele não era do tipo que gostava de aparecer para muitos, tinha aprendido em casa que ele outras pessoas eram mais importantes que ele, como seus irmãozinhos. Isso não o incomodava, até preferia que não prestassem tanta atenção nele.

No meio de mil pensamentos e descrições, ele tinha sentado ao meu lado, e eu nem tinha percebido. Ainda faltava bastante pra chegar até o meu ponto, abri a bolsa pra pegar um chocolate que devia estar há uma semana já. Quando eu ia voltar à minha história, ou no caso, dele, senti ele me cutucando, como se estivesse me chamando. Até fiquei com medo de estar tendo algum assalto no ônibus, pois eu estava com o celular na mão. Olhei para trás, e não tinha nada.

– Você me chamou? – ele me olhou como se eu fosse a pessoa mais louca do mundo. Então, eu ri, porque é exatamente o que faço quando faço algo vergonhoso, o que acontece frequentemente.

– Não, não chamei não. – ele riu, e colocou o fone de volta.

Em algumas palavras ele estragou metade da minha história. O meu personagem não teria falado com tanta desenvoltura como ele falou. Meu personagem é tímido, e teria apenas dito “não”, sem nem olhar nos meus olhos. Vou ter que inventar uma história nova…

– Esse ônibus passa no Parque das Águas? – me tirou dos meus pensamentos, de novo.

– Ahn, eu solto antes de lá, mas acho que passa sim.

– Você mora aqui pelo Peixoto?

– Sim, eu desço aqui na Avenida.

– Está fazendo frio por aqui também? Porque aonde eu moro está insuportável. – ele riu, e começamos a conversar.

Bom, descobri que ele é dançarino, tem uma irmã mais velha, os pais são separados, mas ele mora com o pai. Sempre foi muito inteligente, porém, sentava no fundão, e tinha muitos amigos, e um namorado. Ele era simpático, divertido e até me prometeu umas aulas de dança. O que eu entendi disso tudo é que eu sou péssima para adivinhar como são as pessoas

Talvez, eu nunca tenha acertado uma única vez. Entretanto, foi fantástico saber da história dele. Em todas as minhas histórias procuro colocar um personagem do meu dia. Normalmente, a pare inventada por mim, agora tenho um próprio desafio: inventar a história e depois descobrir a verossimilhança dela. As histórias me encantam todos os dias. Compartilhe sua história, e colecione histórias.

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