Pode ficar calmo.

Ele não tem diploma da melhor faculdade, não tem o emprego mais desejado do mundo, não vai deixar uma herança que me fará brigar com meu irmão na justiça, é estressado, o tom normal de voz parece que está gritando puto da vida, não tem muita paciência. Odeia todas as músicas que escuto, ainda mais quando invento de cantar, já disse que eu nunca serviria para dançar (não protestei) e se irrita toda vez em que eu tropeço na rua, ou perco a atenção de alguma conversa e peço para ele me explicar de novo.

Mas amigo, você não faz ideia de tudo que ele já me ensinou. Mesmo estressado pelo trabalho e problemas da rua, sempre riu das minhas piadas idiotas. Aprendi a assistir o canal do boi e de pescaria, porque “é a única coisa boa na tv”, graças a isso, eu sei quais rios são os melhores para pegar um Tambaqui ou um Tucunaré. Aliás, ele me levou para pescar, mas disse que eu não iria mais, porque eu falo demais e minha agitação afastou os peixes, por isso ele voltou para casa com um único peixinho e eu que peguei… Nesse dia, ele me ensinou a pescar, e também, com um olhar distante e dramático, que na vida você quase nunca volta com o esperado pra casa, mas o importante é persistir em algo que gosta. Descobri que ele gosta bastante de peixe.

Como disse, meu pai não fez faculdade, ele teve que trabalhar muito cedo. Não pela família ser pobre, eles até tinham uma condição tranquila, mas por “tradição”. A família é portuguesa, tinham uma padaria, ele precisava acordar antes das 5 da manhã pra poder preparar tudo e ajudar o pai o dia inteiro. Eu simplesmente amo ouvir as histórias! Ele chegava de festas (ELE DIZ DISCOTECA, GENTE!!!!) dormia 20 minutos e já acordava para o trabalho, pois era um compromisso, não podia deixar de fazer. Ele me fala isso toda vez que quero faltar aula.

Ele não me ensinou só essas lições de morais não. Ensinou-me a atirar com uma espingarda de chumbinho (Aliás, em caso de apocalipse zumbi, juntem-se a mim, minha mira é extraordinária), a pintar uma casa inteira, a montar e desmontar qualquer armário, a trocar lâmpada, a trocar chuveiro, a consertar qualquer coisa sem precisar pagar alguém para fazer. Tentou me ensinar a cozinhar, mas depois de comer umas 3 vezes arroz sem sal e ter queimado ovos cozidos, ele me fez desistir. Também me trouxe paixão por esportes, filmes de ação e Star Wars (obrigada!).

Recentemente, tive que passar um mês sem ele. Foi tudo tão estranho, como se o mundo não estivesse girando direito. Sentia falta de tudo. A casa estava tão silenciosa sem ele gritando sobre qualquer coisa. A pessoa que tinha me ensinado tanto, rido tanto, que fazia trilhas loucas comigo no domingo de manhã estava vulnerável, com medo de ir embora, medo de ficar sozinho.

Na primeira visita que fui fazer quando ele estava internado, confundi o horário que o hospital permitia, cheguei uma hora atrasada. Quando entrei sorrindo e fazendo palhaçada, ele estava chorando. Meu coração nunca doeu tanto. O homem forte, que sempre estava rindo, apesar de todos acharem que ele tem cara de mau, estava chorando. Ele achou que não iríamos na visita, naquele momento, eu só queria tirá-lo de lá, só queria que ele ficasse bom logo. Demorou algumas semanas, ele voltou para casa, foi o dia mais feliz da minha vida quando pude tirar ele de lá.

Esses dias perguntei o motivo dele não me ensinar a dirigir, em tom de piada, disse que era para eu não sumir de casa. Percebi que era um fundo de verdade, vivo dizendo que sonho em sair pelo mundo, ele ainda não percebeu que eu só tenho 3 reais no bolso. Pode ficar calmo, pai.

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