O Karma de Joana

tumblr_obd2i8y6ae1qinh1vo1_1280

Descendo a rua da faculdade, estava Joana. Fazia artes na faculdade, sempre foi apaixonada pelo passado, o que conseguiam fazer com pouca informação e recursos a impressionava, mesmo que escutasse a história 20 vezes seguidas. As esculturas de Michelangelo tiravam seu fôlego, poderia pássaro o dia inteiro só observando os detalhes esculpidos na mármore. Desejava ter nascido naquela época, mas fica feliz por ter nascido na mesma época que Marcelo.

Eles não tinham nada a ver, mas eram amigos. Secretamente, Marcelo era apaixonado por Joana, mesmo sabendo que não iria acontecer. Ele poderia passar 3 fins de semana, observando o céu e falando sobre Joana. Cada detalhe, cada sorriso e cada sonho. Tudo sobre ela o fascinava, do mesmo jeito que Michelangelo a fascinava. Quando ela começava a falar sobre as esculturas, ele observava os seus detalhes e pensava em quanto tempo Deus deve ter gastado para esculpir o nariz perfeito dela.

Joana estava indo em direção ao bar que ficava no fim da rua, não era nenhum bar legal, a cerveja só era barata. Marcelo estava do outro lado da rua, pensou em esperar um pouco, apenas para observá-la distraída, uma das melhores horas. O cabelo sempre bagunçado, ela se recusava a pentear de manhã cedo, estava sem sutiã, provavelmente com a primeira camisa que viu e uma calça jeans. Brincava com os dedos pelas gotas que a bebida gelada tinha feito no copo por alguma reação química que não conseguiu decorar nas aulas do ensino médio.

Era engraçado que o mundo a achava incrível, era quase impossível alguém passar por ali sem olhar duas vezes. Ela não se acostumava com isso, sempre pergunta se tem algo sujo no seu rosto ou na roupa. As pessoas só não estão acostumadas a verem a pureza de sua beleza. Talvez seja por isso que ela não se apaixone, sempre teve todos apaixonados por ela. Ou melhor, pelo seu rosto, seu corpo, seu cabelo, suas roupas.

Joana já havia quebrado três mil e duzentos corações ao longo de seus 22 anos. No começo sentia-se culpada, por não corresponder ao “amor” que lhe davam. Até que percebeu que não era amor, isso nem existia, sempre foi pelo seu rosto, nunca pelas suas piadas ruins, ou poemas que não rimam, ou pelo seu filme preferido, ou pelo seu amor por sorvete, ou por qualquer coisa que não envolvesse sua aparência.

Alguns nem sabiam qual era seu pintor favorito, outros fingiam que gostavam e até armavam possíveis conversas para terem alguma chance. Isso foi esgotando. Marcelo entendia isso, acompanhou tudo isso de perto, queria poder gritar e dizer que enxergava além de tudo, mas no fim, ele sabia que era só pela beleza também, o resto foi só complemento.

Joana o avistou do outro lado da rua, sorriu e o chamou para beber junto. Ela estava tão feliz, falava sobre estilo românico e época medieval, ou era sobre pudim de leite? Marcelo já tinha parado de escutar, tinha se perdido no sorriso, nos ombros, no jeito em que ela mexia a mão, na mecha de cabelo que voava toda vez que passava um carro. Depois pensava que ela sempre iria passar por isso, talvez a beleza não fosse uma qualidade, e sim um carma que ela precisa carregar. Ninguém a escuta, ninguém sabe o que ela pensa, ninguém sabe o que ela quer ouvir ou sentir, apenas sabem a última foto que ela postou no instagram.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s